O nome era Evaristo, mas mesmo dona Aparecida, a mãe, e seu Gino, o pai, só se lembravam disso em época de procurar o registro de nascimento do menino para renovar a matrícula no grupo escolar ou para atualizar a carteira de vacinação no dispensário. Fora essas ocasiões, Evaristo era o “Cheiroso”, apelido que ganhou junto com o hábito de não sair de casa sem tomar banho de água de colônia.

Aos nove ou 10 anos, Cheiroso era o mais inteligente dos meninos do ônibus escolar que o encontrava todas as manhãs esperando nos bancos de madeira do abrigo que o dono da fazenda mandou construir sob a paineira frondosa que se vestia de lilás nos finais de verão de chuva abundante. E que o levava, aos sacolejos, pela estrada empoeirada até a escola, em Schmitt.

Toda vez que a velha jardineira passava ao lado do tímido filete de água que serpenteava o caminho pedregoso desde Cedral, Cheiroso ensinava a quem estivesse a seu lado:

_ É a nascente do rio Preto! – e havia em sua voz o brilho indisfarçável de quem se orgulha de ser conterrâneo do rio. Os dois nasceram em Cedral.

Nunca soube responder à indagação que lhe fizera havia algum tempo um colega interessado em saber o que aconteceria se alguém tapasse a nascente com o dedo: “será que o rio seca?”. Tanta coisa tinha perguntado sobre o rio, mas nunca lhe ocorrera perguntar uma coisa dessas.

Sabia muitas coisas, uma delas que o rio Preto apenas passa pela cidade à qual dá o nome antes de deslizar pelos quase 150 quilômetros que o levam à foz. Achava isso uma injustiça: o rio batiza a cidade e justamente ela é o seu algoz, capaz de sujar sua água, matar seus peixes, destruir sua vegetação, roubar-lhe a vida.

Pior do que isso. É o rio que mata a sede e garante o banho e a saúde dos moradores, como comprovou no dia da excursão da escola à represa e ao Palácio das Águas, o lugar onde as sereias de pedra com tetas de fora disputavam a atenção dos visitantes com os bolhões de água que rebentavam em salas envidraçadas. O rio mata a sede da cidade e, depois, a cidade mata o rio, inconformava-se sempre que pensava no assunto.

Conformou-se um pouco quando soube que, bem mais para baixo, lá longe, o rio renasce, fica largo e cristalino, vibrante em suas corredeiras que parecem fervura de sonrizal, a espuma límpida e branca preparando o mergulho no Turvo. Deixa para trás as cicatrizes que lhe infligem seus dois afluentes mais sujos – o Borá e o Canela, que hoje jazem sob a canalização das avenidas Bady Bassitt e Alberto Andaló. Suas margens, ouvira dizer, eram povoadas de jacarés e sucuris, tal a vitalidade de que se cercavam bem lá no passado, no tempo de seu avô, talvez no tempo do bisavô, muito antes de as pessoas os transformarem em esgotos a céu aberto.

Foi daí para cá, concluiu, que começou o problema das enchentes, o Borá e o Canela despejando no rio Preto toda a água da cidade impermeável, provocando transbordamentos, enxurradas, alagamentos, prejuízos… Até mortes, como andou ocorrendo há menos tempo.

Só pode ser uma vingança, raciocina. O rio Preto, o Borá e Canela estão se vingando do jeito como são tratados.

_ Bem feito! Quem mandou chamar de rio bosteiro?

_ Só pode ser o fragmento de um meteorito glacial…

_ Nada disso. É mijo!

_ … um pedaço enorme que se desprendeu, foi diminuindo em atrito com a atmosfera e chegou à Terra do tamanho que chegou.

_ Que idéia, meu amigo! Aquilo lá é mijo congelado.

A esfera de gelo que caiu sobre a casa do aposentado Sinésio Oliveira, em Catanduva, suscitou diálogos desse tipo, que ouvi outro dia em um posto de gasolina. O frentista que conversava com outro cliente sustentava a estranha tese do bloco de urina congelada, antes mesmo dessa possibilidade ter sido levantada, há duas semanas, pela revista Istoé.

A coisa gelada teria, nesse caso, se desprendido de um avião quando tinha mais ou menos um metro e meio de diâmetro e caído a uma velocidade de 300 quilômetros por hora. Reforça essa tese o fato de os meteorologistas e especialistas afins descartarem a possibilidade do gelo cadente ter resultado de buscas mudanças climáticas, já que, no horário da queda, não havia sinais de vento ou chuva pela região.

Os traços de urina supostamente encontrados na amostra sugerem que o gelo tenha se soltado da área do WC da aeronave, o que levou um amigo a conjeturar a possibilidade do insólito ataque urinário ter sido perpetrado por um avião chegando ou saindo de Rio Preto. Ele próprio concluiu, no entanto, que a suspeita padece de falta de bases físicas: a despropositada ofensiva aérea não poderia ter sido praticada por um avião em baixa altitude. Maldade, portanto, querer achar que isso foi coisa de rio-pretense.

O avião agressor – Enola Gay da bomba urética – deve ter cruzado o espaço aéreo de Catanduva aí pelos 10 mil metros de altitude, talvez numa rota como a de São Paulo a Cuiabá, por exemplo, sem escala em Rio Preto. O dr. Liberato Caboclo chega a desconfiar de algum avião transportando autoridades públicas – o Aerolula, quem sabe? . “É que eles já estão acostumados a fazer essas coisas em cima do povo”, justifica.

Em outra época e em outro lugar – ambos muito distantes – também veio do céu o enigma do meteorito que caiu em 1784, próximo ao riacho Bendengó, região de Monte Santo, em solo baiano.A região se tornaria conhecida daí a quase 150 anos, quando Antonio Conselheiro a transformou em Canudos. O bendengó, como passou a ser conhecido o meteorito, é uma pedra irregular de 5.300 quilos, com mais de dois metros de comprimento por um e meio de largura, composto por ferro e níquel, embora na época as autoridades acreditassem que ele fosse formado por ouro e prata.

As semelhanças acabam por aí. O bendengó de Catanduva é de gelo.

_ É mijo! – como sustentou o frentista do posto de gasolina.

Sai de baixo.

Em homenagem a Antônio Roberto Vasconcelos, que aos 93 anos, deixou os amigos em 31/12/09.
Este texto foi publicado originalmente em 2007.

O clima de conspiração e tensão política, tão presente na maior parte das cidades brasileiras naqueles meses que se seguiram ao 31 de março de 1964, passava longe da “lagoa do Tedeschi” – a convidativa represa que atraía para mergulhos dezenas de rapazes naquelas tardes calorentas do município de Adolfo. Espera aí, mas só rapazes?!?

Só. Isto é, até o dia em que dona Alda Vasconcelos, trajando maiô colorido, puxou uma fila de ruidosas moçoilas da pequena cidade – algumas certamente muito encabuladas pelo sumário dos trajes – e decretou que, a partir de então, o acesso aos banhos refrescantes na água do rio era, também, uma prerrogativa feminina.

A atitude subversiva fez mais do que romper com velhos preconceitos do lugar. Obrigou os rapazes a providenciar roupas de banho de verdade, no lugar das cuecas e ceroulas, quando não da ausência absoluta de qualquer uma delas.

Do cantinho de onde observava a cena, ao longe, orgulhoso do feito de sua mulher, o subversor que inspirou a revolta do maiô sorriu o sorriso dos vencedores. A lagoa de Adolfo acabava de cair!

Este certamente não foi o maior feito que a história da resistência neste fim de mundo atribui ao contador, professor e, principalmente, militante comunista Antonio Roberto de Vasconcelos – o Vasco – um especialista na tarefa de organizar pessoas, priorizar objetivos, derreter argumentos reacionários, dinamitar tabus – quase tudo, menos jantar criancinhas. Desde que chegara a Rio Preto, nos anos 60, com a missão de organizar as bases do PCB pela região, Vasco colecionou uma prisão de sete meses, a suspensão dos direitos políticos, perseguições, ameaças, o inferno.

Ao escolher o Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil como suporte para sua ação proselitista, viu-se frente a uma contingência inadiável: tinha que desempenhar algum trabalho nessa área, para despistar a vigilante e onipresente máquina repressora. Resolveu que seria pintor, mas a função deixou de freqüentar seu currículo no primeiro dia em que se meteu a lixar uma parede. Quando saiu de dentro da nuvem de poeira branca, quase não conseguia respirar.

_ Sacanagem, pô. Meu nariz ficou de um jeito que parecia que eu tinha cheirado um caminhão de cocaína…

A pressão do cerco o empurrou para Adolfo. Integrado à vidinha local, comprou um escritório de contabilidade, chegou a dar aulas no grupo escolar e, numa de suas vindas a Rio Preto – “teje preso, comunista de merda”. O périplo pelas cadeias de Nova Aliança, Lins e Campo Grande deve tê-lo ajudado a chegar mais rápido ao dia em que foi solto e resolveu voltar, na clandestinidade, à região de Rio Preto, desta vez, na cidade de Mendonça.

Lá está o Vasco em pleno exercício de uma de suas mais notáveis habilidades – o carisma e a liderança entre os jovens – quando o inconformismo o coloca, de novo, frente a um imbróglio político: o prefeito da cidade, Nelson Maturana, aproximava-se do final do mandato e, em flagrante confronto com a legislação eleitoral da época, planejava lançar candidata à sua sucessão a própria mulher, Eunice Seixas, com quem vivia maritalmente havia anos, embora eles não fossem formalmente casados.

Certo entardecer de domingo – a cidade em peso no footing ao redor da praça, deliciando-se com as músicas que se sucediam pelo serviço de alto-falantes da igreja – Vasconcelos e um séqüito de jovens entraram na sacristia e apoderaram-se do microfone, numa desesperada tentativa de alertar os eleitores para a brecha da lei:

_ Povo de Mendonça: quem é que não sabe, aqui na cidade, que a dona Eunice é mulher do Maturana?

Dona Eunice, que venceu a eleição e cumpriu todo o mandato, tempos depois ainda se lembrava da invasão ao serviço de som:

_ Eles falaram, falaram e depois ainda puseram música subversiva para tocar…

A canção era “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré, na época recém liberada pela censura, após anos de proibição. E o Vasco está aí, aos 90 anos, conspirando para tornar as pessoas mais inteligentes, interessantes e menos conformistas.

Vai graxa aí?

01/01/2010

Toc, toc…

O freguês sentado no banco de cimento da praça Ruy Barbosa (o banco era uma gentileza dos Chapéus Ramenzoni) nem precisava tirar os olhos e a atenção do Notícias Populares, onde lia as últimas novidades a respeito do bebê-diabo. Aquelas duas batidinhas com o cabo da escova na lateral da caixa de madeira era o sinal de que estava na hora de trocar o pé, que o engraxate daria início ao espetáculo da lustração – o passar sonoro e ritmado do retalho de flanela sobre o sapato engraxado, até que ele ficasse um espelho de brilhante.

Os meninos engraxates, com suas caixas penduradas nas costas, eram parte do cenário da praça – garotos pobres, aí entre os 10 e os 14 anos, que convergiam de todos os lados da cidade e, a seu modo, davam curso a duas imemoriais tradições da cidade: a primeira, que filho de pobre tinha que começar a trabalhar cedo; a outra, o hábito das pessoas de engraxar os sapatos na rua, atendidas por uma forma de trabalho infantil que, aos poucos, roubava os clientes de dentro dos ambientes das engraxatarias e dos salões de barbeiros. Com o surgimento da Arprom, (Associação Rio-pretense de Proteção ao Menor), em 1967, eles – e centenas de meninos pobres – desapareceram das ruas para trabalhar como “guardas-mirins” em escritórios e empresas.

Mas foi ali, nas alamedas da praça, limitadas de um lado pelos fícus enfileirados rente à rua e, de outro, pelos jardins recortados no piso de pedra portuguesa e protegidos por pequenas cercas de arcos metálicos, que gerações deles atravessaram parte da infância e da adolescência refrescando-se com os microrrespingos da fonte luminosa, divertindo-se com as fotografias das cenas de filmes nos cartazes dos bang-bang do Cine Rio Preto ou jogando bola de meia em dia de movimento fraco.

Eram tão personagens da praça quanto os motoristas de táxi dos pontos da Jorge Tibiriçá – o Raymundo Veneziano, o Edgar Colturato, o Zé Mota e o Joaquim “Caçabriga” – sempre às turras com a molecada e com as andorinhas, aves especialmente proficientes em macular a pintura de seus reluzentes Simcas Chambord e AeroWillys.

Todos liam as manchetes do Notícias Populares sobre o bebê-diabo na banca de revista dos irmãos Luís Rey e Fernando Reis, onde também se deliciavam imaginando o que poderia estar por trás daquelas capas de gibis que mostravam em situações desafiadores heróis como o Fantasma, o Tarzan, o Zorro, o Superman…

Me lembrei da praça Ruy Barbosa ao receber, na semana passada, um e-mail do amigo Toninho Cury, comentando a beleza da decoração de Natal – “coisa que não via há anos”. De fato, ficou maravilhosa, resgatou os melhores tempos de uma época em que as famílias ainda passeavam nas praças e as crianças, como lembrou o Toninho, brincavam de rico-trico e comiam pipoca.

As praças ajudam a trazer de volta boas lembranças…

Praça Rui Barbosa, decorada para o Natal, no centro de Rio Preto. Foto: Toninho Cury

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